
Meu querido amigo Hélio – e falo com completa sinceridade,
Tenho recebido seus emails de conteúdo anti-religioso, digamos. A tempos eu queria responde-lo mas a correria sempre me impedia. O email que me faz responde-lo é este que trás um menino que pensa ter descoberto a lua por reflexões rasas como aquelas que cansei de ver entre os religiosos. E tudo com áurea de sabedoria.
Eis o link por você enviado.
Você sabe, das alcunhas religiosas estou longe. Deixe-as como que a uma ama de leite. Já não acredito nos ditames dogmáticos que nos dizem quem devemos ser ou por onde devemos ir. Enojo as barganhas, as prisões, as moralidades, as doenças, as prosperidades, os vícios e todas as outras doenças que há no meio.
Mas estou longe de caminhar sozinho.
Nieztche caminhou sozinho. Mas isso não quer dizer que esse foi e é o melhor caminho. Se caminhar sozinho fosse bom não buscaríamos amantes ou filhos. Precisamos de companhia, de amor, de carinho. De dar e receber.
Preciso dizer-lhe, contudo: não acredito em ateus. Ainda não conheci um de fato. O que vejo são religiosos ao aveso: presos a dogmas, doutrinas e autores, seguem querendo fazer prosélitos onde, do alto da palhaçada, dizem: nada existe a não ser a dúvida.
Pobres, eu digo, pois, se existisse a dúvida como dogma, nem isso haveria posto que o postulado da dúvida poria a própria dúvida em dúvida. Raso é isso.
Eu vivo crendo na verdade. Sou homem da verdade. Vejo que a verdade é a busca da ciência e dos homens que querem o melhor para si e para a humanidade. É por crer que há algo melhor numa pesquisa, numa tese, numa busca, que seguimos. Segue-se em busca da verdade. Só a cegueira religiosa diz ao contrário, fazendo-os, assim, pastores de uma ateulogia.
Sempre foi assim. A dúvida é apenas um falso postulado. A ausência da verdade não é a dúvida, como nos querem fazer crer os meninos. O contrário da verdade – veja como é óbvio – é a mentira e não a dúvida. A dúvida apenas existe para buscar o que é verdadeiro e isso não como postulado indefectível, mas apenas como um acidente. O ponto final é sempre a verdade e não a dúvida. Apenas os auto-enganados pensam crer na dúvida. Ora, se é dúvida não há crença. Se é crença já não é dúvida.
De minha parte, como homem, não gente da dúvida. Creio e por isso vivo. Creio no amor que sinto por meu filho, minha mulher, meus pais, parentes, no que escrevo, de onde tiro meu “ganha pão”, no que leio. Creio e por isso sigo. Creio que o mundo piorará. Que o amor de quase todos virará folhas ao vento – e por isso escrevo, falo, publico. Creio que alguns podem enxergar-se em meio a toda superficialidade. Creio ainda que só o amor pode curar. Creio que o Evangelho é Amor de Deus ao mundo, através de Jesus, a Encarnação da Verdade no coração dos homens e na história.
Mas ora, meu amor é sempre parcial. Amo pouco. Na verdade, posso até ser poeta, mas sou aprendiz do amor. Meu amor também é raso como haveria de ser posto que sou homem. Mas minha humanidade não é prova da ausência de Deus. Minha maldade, minha parcialidade, meu enxergar por espelhos é apenas a prova de que sou filho do pecado. Mas sou também, pelo paradoxo delicioso que é viver, filho de Deus.
Há uma Fonte de onde vem toda flor, sem alguma explicação, apenas chamando-nos à fé. Sim há a Fonte e ai de nós se assim não fosse. Mesmo aqueles que dizem não haver fonte, seguem sedentos na internalidade do coração.
E estará longe desse Amor de ser impessoal. Jesus é o exemplo supra da Pessoalidade do Amor Encarnado. Em Jesus Deus falou conosco e não nos esquizofrenizou. Olhar o Evangelho é enxergar Deus. É saber como tratar os pobres, e como tratar os meninos. É não dar importância aos mestres e afirmar que as prostitutas têm lugar no Reino. É levar um bandido para casa sem batizá-lo. É ignorar o Príncipe, ainda que seu nome seja Pilatos. É não se deixar levar pela multidão que o diz amar. É amar pai e mãe sem endeusá-los, mas em tudo respeita-los. É seguir em frente sem medo do deserto. É evangelizar aos homens num barquinho e apenas comparecer aos altares da religião para dizer de si mesmo que Era Aquele que viria. É não ter medo do vinho, não lavar as mãos no ritual e falar com mulheres sozinho. E dar ao mundo o maior discurso do mundo numa montanha, sem a presença de vultos da sociedade. É ser o Evangelho e não fazer disso conquista, poder e representatividade.
Vemos Jesus e vemos Deus. Não porque queremos, mas porque se Jesus não existisse precisaríamos inventá-lo afinal nosso próprio cérebro é feito para crer, dizem as pesquisas.
Mas isso é para provar a existência de Deus? Deus me livre!
Deus não se comprova, prova-se no peito.
Não posso provar Aquele que a mim engravidou no Evangelho, assombrou no Amor, tomou-me em Graça. Ou engravida-me a mim, toma-me como a um temporão, enche-me até a boca como a barco de pescadores que encontra um cardume de corvina ou então nada há a falar. Ou isso se faz em mim, ou de nada valerá.
Ora, afinal, Deus É. Eu existo. Eu sou existente: nasço, cresço, como, bebo, durmo, penso, logo existo.
Deus não existe. Deus é premissa impossível, improvável, inexistente.
Deus é, ora.
Eu existo.
Sendo assim, provar o improvável é tarefa para os meninos teólogos. Ou, ao contrário “não acreditar em Deus”, como diz o deslumbrado menino do vídeo, é não acreditar em quê? No que não existe?
Ora, eu não acredito em Papai Noel, que tem barba branca, roupa vermelha e distribui presentes em 25 de dezembro, mas como eu não acreditaria em Deus? Não acreditar em Deus é não acreditar em quê, afinal? Como direi não acreditar no que não existe?
Coisas de meninos que acham terem descoberto o mundo porque leram Dawkins...
Mas isso está longe de ser uma carta-resposta aos ateus. Essa é apenas uma carta-amiga a você meu amigo, aquele que, tendo visto as tolices da religião, parece-me ter confundido alhos e bugalhos.
Das religiões, e suas moralidades de papel, estou divorciado sem possibilidade de volta. Desse veneno fui picado, mas encontrei a cura.
Só o Evangelho é a nossa cura. Isso não apenas para as tolices das religiões, mas de todas as outras: políticas, educacionais, familiares, profissionais e todas as outras demandas planetárias que são completamente imbecilizantes.
Aliás, nunca confundi a religião com o Evangelho. Não deixei a religião e fiquei com raiva de Deus. Nunca confundi Deus com aqueles que se dizem supostamente representantes dEle. Os sacerdotes ouvem de mim apenas que precisam converter-se ao Evangelho e que precisam deixar essa hidra de tantas cabeças quanto egos a fim de que ela morra de fome.
Assim, meu amigo, leia o Evangelho pelo Evangelho. Verá que há muito a aprender posto que a dúvida apenas leve a mais dúvida, e a verdade à verdade.
Espero ter contribuído para sua reflexão.
Com carinho por você,
No Caminho onde a verdade é a única busca saudável, onde essa mesma verdade nos diz ser o cristianismo ser apenas apenas mais uma "logia",
Vando
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