Ainda sobre a superficialidade: uma reflexão urgente


Este texto saiu antes no Tribuna Livre impresso.

Imagem: Retirada daqui.


Tenho falado insistentemente sobre a superficialidade que domina a quase todos. Os não superficiais quase sempre se viram em algum gueto da sociedade visto que a maioria já não suporta a verdade ou a mínima crítica profunda sobre o status quo dominante.


Na verdade o que temos são opiniões quase sempre rasas sobre tudo e que não admitem um arrazoado melhor dado. Vale sempre uma espécie de discurso conciliatório covarde. Ora, eu mesmo me vejo sempre as voltas com isso. É preciso muita reflexão e coragem para escapar das garras desse monstro babão que quer dominar o coração de todos. E nem sempre é fácil.


A verdade é que em tudo nos tornamos cínicos, pouco ávidos por conhecer, sempre acostumado ao conforto da religião, todo tempo querendo levar vantagem em todas as coisas e puerilmente achando que o mundo conspira a nosso favor porque somos legais.


Ora, se conhece a grandeza de um homem não por aquilo que ele ganhou, mas por aquilo que abriu mão de ganhar.


Enquanto isso o discurso religioso é de muitas vitórias.


Mas, caso alguém queira caminhar com Jesus, saiba: não há uma sala de troféus de vitórias para oferecer, nem sequer um futuro próspero e tranqüilo no final do arco íris, e não há um forma ou fôrma para apresentar, muito menos uma certeza de tudo (se não a fé em Deus), e nem há amuletos de sorte ou de energização para emprestar.


Em Jesus a vida é o que é. Sem romantismos. Sem brilhantismos. Mesmo o amigo a quem Ele fez reviver – Lázaro –, morreu.


E bom lembra aqui que, em agonia Jesus foi a um lugar isolado para orar. Era tanto a dor que sua pele irrigou-se de sangue. Nas expectativas atuais, suar sangue garantiria o sucesso marketeiro. Na vida como sempre foi a cruz veio, mesmo para Jesus.


É assim que sem fé – novamente – é impossível agradar a Deus. O que nos livrará não será o troféu no fim da caminhada de um reconhecimento dado entre láureas nos braços do povo, mas sim apenas a fé pois está dito que nem só de pão viveremos mas sim de toda Palavra que vem da boca de Deus. O que nos trará paz nunca será o reconhecimento de nada, mas apenas o saber que temos nosso nome entre os nomes daqueles que estão com Ele. O que nos fará bons homens não será, certamente, a vitória sobre o mal, mas muito mais a resistência ao pecado que nos habita.


Assim, ou escolhe-se o caminho da simplicidade responsável e da profundidade leve, ou continuaremos a ver o que temos visto e ouvido: muitos paspalhos politicamente corretos e rasos como copos d’água de criança. Deus nos ajude.



Vando

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Cartas: O que você acha da "bíblia da vítória financeira"?


Email recebido:

Graça e Paz, Vando!

Gostaria de saber sua opinião sobre o recorde de vendas da "bíblia de batalha espiritual e vitória financeira"? Sei que vivemos dias de profunda crise na igreja evangélica, mas o que leva as pessoas, por exemplo, a desejar mais a "vitória financeira" do que aprender a ser misericordioso segundo o Evangelho?

Você concorda que a bíblia seja interpretada a partir dessas chaves hermenêuticas (batalha espiritual e vitória financeira)?

Em minha opinião, esta "bíblia" é um ícone de uma geração "evangélica" entorpecida pelos valores deste mundo e desejosa mais de ter do que ser em Jesus.

O que você pensa sobre isso?

Um abração na Graça de Deus,

Marcos Wandré

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Resposta:


Olá Marcos,


Paz sobre você e todos os seus.


Meu irmão, toda essa troça, para mim, é uma grande palhaçada! Tenho até outros nomes para nomear esse “ganha pão”, mas aqui poupo os leitores.


Veja bem, o Malafaia tem uma retórica forte, com uma interpretação bíblica extremamente moralista, de um viés pentecostal pai de muita doidice. Fico com pena, sinceramente. Acho uma perda de tempo. E tem gente que gosta porque, o que o faz vender é exatamente a patetice de uma platéia ávida por novidades religiosoas que lhes possam trazer uma resposta – mesmo que essa resposta seja apenas doce para uma platéia com diabetes avançada.


Veja você o tamanho da confusão: como participo num programa de tv aqui em Angra, onde falo sobre o Evangelho, uma pessoa que viu comentou sobre o Malafaia dizendo gostar muito dele. Eu disse não gostar. Ora, eu e ele falamos coisas extremamente diferentes. Já hoje estava na casa de um amigo e ele dizia-me gostar do mesmo Mala. Ora, eu apenas disse que não gostava. Que ele não trazia a mensagem do Evangelho. E a conversa se deu por encerrada porque meu amigo, em tom de troça, diz que para ele pouco importava.


E assim caminha a humanidade.


Você me pergunta meu irmão o que leva a tantos deixarem-se levar por um canto de sereia deste como uma “bíblia da vitória financeira”. Para mim é uma série de fatores que mereceriam uma acurada leitura. Alguns deles são: em primeiro e óbvio lugar: o não evangelho pregado. Depois uma cultura geral rasa e patética. Ora, num país onde o pagode, o axé e funk são os símbolos culturais da massa o que esperaríamos em termos de uma mínima reflexão como essa? Também podemos citar a ganância de um mecanismo cultural que valoriza o ter, mesmo que passando por cima de tudo e todos. Ora, não valorizamos o amor, a paciência, a misericórdia. E não falo da Graça que é o amor de Deus de forma incompreensível e incomedidamente rasgado pelos homens. Falo apenas de valores culturais básicos. Junte-se a isso a troça evangélica onde os líderes são transformados em deuses africanos que incorporam verdadeiros vudus de medo, controle e direcionamento do pensar, do agir, do vestir e onde trabalhar para milhões e milhões de pessoas. Aqui o vodu haitiano é brincadeira de pega-varetas com essa macumbaria de poder sobre a vida do outro feita por esses líderes.


Já não há reflexão, mas sim apenas uma repetição tosca de frases de efeito e metodologias que não são pautadas no Evangelho, como a sede de um “avivamento” que nunca vêm. Mas ora, acham então que, por esperarem um suposto evento, eles mesmos já estão fazendo alguma coisa e não percebem que, a busca representa apenas essa passividade que trás nome de prática, mas é apenas a preguiça de dar nomes e sobrenomes aos bois do marasmo espiritual. É uma forma poética de nada fazer, de nada deixar do que precisa ser deixado e de enganar a si próprio e aos outros.


Ato contínuo: veja os livros mais vendidos, as revistinhas de escola dominical, os CD´s e tudo fará sentido. Ou seja: não há sentido espiritual algum: é apenas a busca de soluções mesmo. “Deus” é uma grande divindade pagã, superpoderosa, que resolve tudo para todos. E que, obviamente, quando não resolve, causa raivinha.

Quando somos chamados como povo do Nome dEle, a orar, se humilhar e chorar, não é para tratar isso como um banho de chuva de emoções de domingo a noite. Precisa ser sim um (re)conhecimento factual – ainda que esse fato exija reflexões no gerúndio, no dia chamado Hoje – e assim prosseguir, não como meninos que gostam de cantar musiquinhas e achar que, pelas músicas cantadas – com acordes muitos bem planejados para causar emoções – terá imantado alguma espécie de canal direto com uma espécie de deus ansioso pelo mau gosto musical.


Ora, somos chamados, de uma forma simples e direta a sermos prudentes, simples, vigilantes, dados a oração. Mas tudo isso como parte do processo de conversão de um falso eu a um verdadeiro Eu, já confirmado nEle, mas ainda em processo em nós.


Quando não entendemos o que está dito, passamos à escravidão de qualquer coisa que porventura esteja escrita. É aqui que entra com força total qualquer bíblia que precisa ser particionada por uma necessidade de Mercado – sim o deus que você cita. Assim temos a bíblia teen, a jovem, a da mulher, a de negócios, a de estudos. Os markequeteiros são gente atenta. Recebem para isso. Estudam para perceber tal necessidade num público avidamente necessitado de uma novidade para os tirar de uma miséria que, antes de ser financeira, é existencial.


Daí: ou se convertem ao Evangelho, ou reconhecem a angústia que nos habita de quem já não tem para onde ir, ou a sede que nos consome como uma corça no deserto e assim percebam-se ou tudo rumará para um inferno pior e cada vez mais escrachado na maluquice, na brequice e na sede de poder e representatividade (sobre a vida do outro e da comunidade como um todo – quiçá do país).


Sim, meu irmão, não sou nada otimista. Os evangélicos atingirão sua meta de serem 50% da população e além. Não demorará. E aí veremos coisas atrozes acontecendo. Tudo em nome de Deus, da boa moral e de missões. Deus nos ajude quando acontecerem essas coisas.


Sobre a chave hermenêutica de interpretação das escrituras só conheço uma: Jesus. Toda outra interpretação que não aconteça a partir de Jesus é falha. Neste caso é simplório: como Jesus tratou o dinheiro? Uma simples observação nos fará cuidadosos nesse quesito: o único demônio que Jesus nomeia é justamente o dinheiro.

Sua jornada entre nós em nada se assemelha a essa corrida do ouro vivida praticamente de forma geral. Quando diz não ter onde reclinar a cabeça o que está nos demonstrando era que nada o pertencia: tudo é do Pai. Daí que ajuntar tesouros na Terra, onde os juros e o desemprego corroem, é tolice. A chamada, nEle, é para andarmos em fé, ou seja, não ansiosos por nada e isso não porque temos de tudo, mas apenas porque confiamos.


Pergunto-lhe: é assim entre nós?


Ora, toda hermenêutica que use alguns versos isolados ou personagens específicos (Abraão é o preferido dos “mestres”) se faz mentirosa porque não concorda com Jesus. E o que não concorde com Jesus – que pode vir da própria bíblia ou de um anjo – que seja anátema por todos aqueles que se arrogam a serem chamados filhos do Nome.


Meu irmão, não vejo saída disso a não ser sair, sem olhar para trás.


E crescer no Evangelho porque já é um tempo em que os ouvidos não suportam o Evangelho e isso primeiramente aos cristãos.


Deus o abençoe meu mano.


Vando

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Atualização no blog


Agora você pode fazer perguntas na caixinha aqui ao lado através do formspring.me.

É rápido e fácil.

Por falar nisso a primeira pergunta está lá respondida: www.formspring.me/vandobarboza.

Bjs a todos,

Vando

Jesus não era um revolucionário


E por que afirmo o título acima?

Deveria ser óbvio, mas vamos a alguns motivos para minha afirmação:

Jesus não queria implantar um reino na Terra. Seu Reino não é deste mundo. O Reino de Deus, chegado a nós, é gerúndio em nós aqui e ponto final na Eternidade. Mas o Reino não trás, em nenhum momento, uma proposta de mudança da sociedade através de qualquer revolução, seja ela religiosa, política, cultural ou social. O Reino se emula no ser e espraia, através dele, para seu entorno, mas nunca como missão revolucionária ou reformadora de nada, mas apenas como existência visto que o sal dissolve-se na carne para dar-lhe sabor.

Não almejava o poder. O que afirmo no item anterior cabe também perfeitamente aqui. Mas Jesus não deixa dúvida nenhuma disso na forma como tratava os mestres da religião e o poder político. A Pilatos ele dá-se o direito de não responder. Aos mestres da religião, xinga.

Não desejava ser “o cara” para ninguém. São inúmeras as vezes que Jesus não era politicamente correto com nada nem ninguém. Nem Pedro lhe escapa visto que, quando a situação pediu, Jesus o resistiu na cara e disse-lhe: “afasta-te de mim Satanás”. Jesus era próprio em tudo e, dessa forma, era o que era sem fazer média com nada nem ninguém: nem com regras de etiquetas sociais ou religiosas.

Não era dado a romantismos de utopias para um “futuro melhor”. Não se vê em Jesus um plano nesse sentido. Todos os seus anúncios para o futuro dizem respeito ao apocalipse que viria. Quando alegra-se não é pelo dia que virá, mas pelos homens que demonstram fé. Quando faz um grande discurso exalta o crescimento do homem interior e não a falsa propaganda de uma sociedade igualitária ou de uma falsa e futura paz que nunca virá.

Não tinha um discurso para mudar o mundo. Seus discursos mudavam pessoas. Deus amou o mundo, enviando Jesus, não para que o planeta atingisse uma paz que não é a de Jesus, mas sim para que fossem salvos do próprio mundo. Afinal, a paz do mundo não é a paz de Jesus. Sinceramente, se você ainda vê "um novo começo de era, de gente fina elegante e sincera" ainda dá tempo de acordar.

Não tinha uma agenda secreta, muito menos agentes secretos. Seus atos eram no meio do povo. Retirava-se para orar ou para encontrar-se intimamente com seus amigos. Mas tudo que o dizia, falava a todos.

Assim, se você quer Jesus, queira-o para que você seja um bem aventurado, para que aprenda a amar, para que cresça em fé, para ter esperança no porvir Eterno, para descansar em paz em meio à guerra, para ser misericordioso sempre e gracioso em tudo. Daí você entenderá o que é não pôr vinho novo em odres velhos.

Creia em Jesus não como mestre, mas como Deus. Mas creia de verdade. Caso contrário seja sincero consigo e diga-se que você não é alguém do caminho, mas sim gente das utopias religiosas - ou não – onde Jesus é um grande ícone. E nada mais.

No Caminho onde o chamado não é à revolução, mas a crer e manter-se firme nas doutrinas dos apóstolos – veja bem, na doutrinas dos apóstolos e não nessas tolices de religião Moral, Cívica e Prosperidade de nossos dias,

Vando
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A lógica do absurdo*

Quanto ao título você perguntaria? Existe alguma lógica no absurdo? Eu diria que, do ponto de vista puramente emocional pode não haver.

No entanto diante da vida o absurdo (ou caos, como preferir) faz parte da existência como normalidade. Veja se não é absurdo um universo que não podemos definir o fim.

Pense no fim de alguma coisa. Ou então pense em algo que não tem fim... Do macrocosmo ao microcosmo: visualize que entre os átomos há apenas espaços vazios. Sendo assim, nós somos uns amontoados de espaços vazios. Absurdo.

Lembre de Abrão, aquele a quem Deus pediu o filho. E ele foi disposto a tudo no monte a fim de sacrificar seu filho. Ainda que os da religião exaltem esse ato, isso é absurdo. No fim, o sacrifício não fora consumado: ambos voltaram para casa. Mas, imagine comigo se o sacrifício fosse cumprido. Por um instante imagine o absurdo que seria conviver com a dor do distanciamento do filho até o fim da vida sem saber se o que fizera tinha tido valor. Absurdo!

Imagine Jó que tudo perdera e nem assim amaldiçoara Deus, sem sequer saber que havia um desenlace espiritual em tudo e que ele não tinha acesso a nada. E pior: seus amigos eram verdadeiros amigos da onça. Gente que queria achar, nele, Jó, o motivo da sua dor.

E veja Jesus, a quem a cruz foi o desenlace. Isso porque foi seguido – de fato – por poucos, renegado pelos de sua casa, tido por marginal pelos da religião e sepultado de favor. Absurdo.

Mas quem disse que a vida é diferente?

É por essa mesma “lógica do absurdo” que o escritor de Eclesiastes pergunta: “Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?”. Não é novidade que a vida seja assim. Apenas a religião faz tudo para esconder que assim é porque a dor não combina com a prosperidade material, moral ou biológica. Mas um dia as coisas dão erradas: o emprego se vai, o erro é cometido, o corpo falha e a natureza se enfurece.

E o que nos salvará da loucura da realidade? Fé. Porque sem fé – não essa fé da grana, do “Deus maioral”, do “Deus moral”, mas apenas fé em Deus mesmo – é impossível agradar a Deus. Não que ele precise do nosso agrado, é porque Ele não é homem para que se possa barganhar.

Pense nisso.

Bjão,

Vando
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*Saiu antes no Tribuna Livre impresso

Cartas: O caminho da verdade como carnegão na vida e a ilusão da dúvida como proposta racional


Meu querido amigo Hélio – e falo com completa sinceridade,


Tenho recebido seus emails de conteúdo anti-religioso, digamos. A tempos eu queria responde-lo mas a correria sempre me impedia. O email que me faz responde-lo é este que trás um menino que pensa ter descoberto a lua por reflexões rasas como aquelas que cansei de ver entre os religiosos. E tudo com áurea de sabedoria.


Eis o link por você enviado.


Você sabe, das alcunhas religiosas estou longe. Deixe-as como que a uma ama de leite. Já não acredito nos ditames dogmáticos que nos dizem quem devemos ser ou por onde devemos ir. Enojo as barganhas, as prisões, as moralidades, as doenças, as prosperidades, os vícios e todas as outras doenças que há no meio.


Mas estou longe de caminhar sozinho.


Nieztche caminhou sozinho. Mas isso não quer dizer que esse foi e é o melhor caminho. Se caminhar sozinho fosse bom não buscaríamos amantes ou filhos. Precisamos de companhia, de amor, de carinho. De dar e receber.


Preciso dizer-lhe, contudo: não acredito em ateus. Ainda não conheci um de fato. O que vejo são religiosos ao aveso: presos a dogmas, doutrinas e autores, seguem querendo fazer prosélitos onde, do alto da palhaçada, dizem: nada existe a não ser a dúvida.


Pobres, eu digo, pois, se existisse a dúvida como dogma, nem isso haveria posto que o postulado da dúvida poria a própria dúvida em dúvida. Raso é isso.


Eu vivo crendo na verdade. Sou homem da verdade. Vejo que a verdade é a busca da ciência e dos homens que querem o melhor para si e para a humanidade. É por crer que há algo melhor numa pesquisa, numa tese, numa busca, que seguimos. Segue-se em busca da verdade. Só a cegueira religiosa diz ao contrário, fazendo-os, assim, pastores de uma ateulogia.


Sempre foi assim. A dúvida é apenas um falso postulado. A ausência da verdade não é a dúvida, como nos querem fazer crer os meninos. O contrário da verdade – veja como é óbvio – é a mentira e não a dúvida. A dúvida apenas existe para buscar o que é verdadeiro e isso não como postulado indefectível, mas apenas como um acidente. O ponto final é sempre a verdade e não a dúvida. Apenas os auto-enganados pensam crer na dúvida. Ora, se é dúvida não há crença. Se é crença já não é dúvida.


De minha parte, como homem, não gente da dúvida. Creio e por isso vivo. Creio no amor que sinto por meu filho, minha mulher, meus pais, parentes, no que escrevo, de onde tiro meu “ganha pão”, no que leio. Creio e por isso sigo. Creio que o mundo piorará. Que o amor de quase todos virará folhas ao vento – e por isso escrevo, falo, publico. Creio que alguns podem enxergar-se em meio a toda superficialidade. Creio ainda que só o amor pode curar. Creio que o Evangelho é Amor de Deus ao mundo, através de Jesus, a Encarnação da Verdade no coração dos homens e na história.


Mas ora, meu amor é sempre parcial. Amo pouco. Na verdade, posso até ser poeta, mas sou aprendiz do amor. Meu amor também é raso como haveria de ser posto que sou homem. Mas minha humanidade não é prova da ausência de Deus. Minha maldade, minha parcialidade, meu enxergar por espelhos é apenas a prova de que sou filho do pecado. Mas sou também, pelo paradoxo delicioso que é viver, filho de Deus.


Há uma Fonte de onde vem toda flor, sem alguma explicação, apenas chamando-nos à fé. Sim há a Fonte e ai de nós se assim não fosse. Mesmo aqueles que dizem não haver fonte, seguem sedentos na internalidade do coração.


E estará longe desse Amor de ser impessoal. Jesus é o exemplo supra da Pessoalidade do Amor Encarnado. Em Jesus Deus falou conosco e não nos esquizofrenizou. Olhar o Evangelho é enxergar Deus. É saber como tratar os pobres, e como tratar os meninos. É não dar importância aos mestres e afirmar que as prostitutas têm lugar no Reino. É levar um bandido para casa sem batizá-lo. É ignorar o Príncipe, ainda que seu nome seja Pilatos. É não se deixar levar pela multidão que o diz amar. É amar pai e mãe sem endeusá-los, mas em tudo respeita-los. É seguir em frente sem medo do deserto. É evangelizar aos homens num barquinho e apenas comparecer aos altares da religião para dizer de si mesmo que Era Aquele que viria. É não ter medo do vinho, não lavar as mãos no ritual e falar com mulheres sozinho. E dar ao mundo o maior discurso do mundo numa montanha, sem a presença de vultos da sociedade. É ser o Evangelho e não fazer disso conquista, poder e representatividade.


Vemos Jesus e vemos Deus. Não porque queremos, mas porque se Jesus não existisse precisaríamos inventá-lo afinal nosso próprio cérebro é feito para crer, dizem as pesquisas.

Mas isso é para provar a existência de Deus? Deus me livre!


Deus não se comprova, prova-se no peito.


Não posso provar Aquele que a mim engravidou no Evangelho, assombrou no Amor, tomou-me em Graça. Ou engravida-me a mim, toma-me como a um temporão, enche-me até a boca como a barco de pescadores que encontra um cardume de corvina ou então nada há a falar. Ou isso se faz em mim, ou de nada valerá.


Ora, afinal, Deus É. Eu existo. Eu sou existente: nasço, cresço, como, bebo, durmo, penso, logo existo.


Deus não existe. Deus é premissa impossível, improvável, inexistente.


Deus é, ora.


Eu existo.


Sendo assim, provar o improvável é tarefa para os meninos teólogos. Ou, ao contrário “não acreditar em Deus”, como diz o deslumbrado menino do vídeo, é não acreditar em quê? No que não existe?


Ora, eu não acredito em Papai Noel, que tem barba branca, roupa vermelha e distribui presentes em 25 de dezembro, mas como eu não acreditaria em Deus? Não acreditar em Deus é não acreditar em quê, afinal? Como direi não acreditar no que não existe?


Coisas de meninos que acham terem descoberto o mundo porque leram Dawkins...


Mas isso está longe de ser uma carta-resposta aos ateus. Essa é apenas uma carta-amiga a você meu amigo, aquele que, tendo visto as tolices da religião, parece-me ter confundido alhos e bugalhos.


Das religiões, e suas moralidades de papel, estou divorciado sem possibilidade de volta. Desse veneno fui picado, mas encontrei a cura.


Só o Evangelho é a nossa cura. Isso não apenas para as tolices das religiões, mas de todas as outras: políticas, educacionais, familiares, profissionais e todas as outras demandas planetárias que são completamente imbecilizantes.


Aliás, nunca confundi a religião com o Evangelho. Não deixei a religião e fiquei com raiva de Deus. Nunca confundi Deus com aqueles que se dizem supostamente representantes dEle. Os sacerdotes ouvem de mim apenas que precisam converter-se ao Evangelho e que precisam deixar essa hidra de tantas cabeças quanto egos a fim de que ela morra de fome.


Assim, meu amigo, leia o Evangelho pelo Evangelho. Verá que há muito a aprender posto que a dúvida apenas leve a mais dúvida, e a verdade à verdade.


Espero ter contribuído para sua reflexão.


Com carinho por você,


No Caminho onde a verdade é a única busca saudável, onde essa mesma verdade nos diz ser o cristianismo ser apenas apenas mais uma "logia",


Vando

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Sobriedade num tempo de superficialidades sem fim


Vivemos num mundo de superficialidades. Em todos os sentidos: profissional, familiar, comunitária, educacional, política (nem precisaria falar!), de imprensa, cultural etc. A superficialidade religiosa então é lugar comum.


Dito isso as pessoas já não sabem mais o que são, para onde vão e nem o que as rodeiam.


Vivemos num mundo complexo, com interesses sutis ou não, que busca a todos formatar como a soldadinhos de chumbo.


Estou falando de homens completamente rasos cujo sentir e agir são infantis. Quase todos precisam de um aio, de alguém que lhes pegue pela mão e os façam atravessar a rua. Não é então surpresa quando esses meninos e meninas não suportam a vida, quando encontram com a vida como a vida sempre se fez desde que o mundo é mundo.


Vivemos num mundo tão virtual, que as discussões mais profundas que se ouve são sobre a tatuagem do personagem do BBB. Não é difícil imaginar que as dores do mundo, a esses, sejam tratadas sempre com uma proposta de distanciamento.


Lamentamos a dor, não exatamente pela perda, mas porque a dor nos tira do nosso lugar de conforto e nos lança no olho do furacão. A dor nos mostra do que somos feitos.


É assim que não aceitamos mais os pequenos problemas do cotidiano posto que estes nos tiram de nossa Neverland.


Já não sabemos quem somos, já não queremos algo melhor ao outro, já não queremos falar sobre a verdade, já não esperamos com expectativa ardente por Deus em nós – Deus agora precisa se mostrar como Deus forte e poderoso somente aos outros: os não-crentes.


Agora já acreditamos que o raso é normal.


Meus amigos pede-se de nós sobriedade.


Sendo sóbrios poderemos deixar de ser tão bobinhos e levados por qualquer vento de maluquice política ou religiosa. Enxergaremos os outros e poderemos ver nele muito mais do que um avatar (no sentido virtual da palavra), mas o veremos como gente. Ainda que esse enxergar nos faça ver o que não gostaríamos e trilhar por caminhos ásperos.


Que Deus nos ajude.


Obs: Ao terminar esse texto, minha mulher, Erica, chamou-me para prestar atenção na letra da abertura da novela "Cama de Gato". Trata-se de uma música dos Titãs com forte crítica sobre um sistema que a todos quer dominar e que cabe aqui como ilustração do que disse acima. Clique aqui e leia a letra. Infelizmente os religiosos levantam contra a letra uma acusação de "demoníaca". Bem, deixem que falem, afinal, para o crente médio tudo que não é da "igreja" é do "mundo". Quanto a você, reflita e permita-se não fazer parte do circo.



Bjão,


Vando

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